{"id":3004,"date":"2023-03-30T08:51:00","date_gmt":"2023-03-30T11:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/nordesteimprensa.com.br\/?p=3004"},"modified":"2023-03-30T08:51:01","modified_gmt":"2023-03-30T11:51:01","slug":"familiares-de-vitimas-da-violencia-policial-cobram-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nordesteimprensa.com.br\/index.php\/2023\/03\/30\/familiares-de-vitimas-da-violencia-policial-cobram-justica\/","title":{"rendered":"Familiares de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial cobram justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>Na semana que marca os 59 anos do golpe de Estado de 1964, a Coaliz\u00e3o Brasil por Mem\u00f3ria, Verdade, Justi\u00e7a, Repara\u00e7\u00e3o e Democracia reuniu m\u00e3es e familiares de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial ao longo dos \u00faltimos anos em um debate na C\u00e2mara dos Deputados, em Bras\u00edlia, na tarde da \u00faltima &nbsp;ter\u00e7a-feira, 28. O evento foi marcado pela como\u00e7\u00e3o das pessoas que seguem sofrendo na pele a a\u00e7\u00e3o brutal das for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado, mesmo d\u00e9cadas ap\u00f3s o fim do regime autorit\u00e1rio no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de Bruna Silva, m\u00e3e de Marcos Vinicius Silva, que morreu aos 14 anos durante uma opera\u00e7\u00e3o policial o Complexo de Favelas da Mar\u00e9, zona norte do Rio de Janeiro, h\u00e1 quase cinco anos. Na \u00e9poca, o caso ganhou grande repercuss\u00e3o nacional, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o houve justi\u00e7a. Naquele momento, em 2018, o Rio de Janeiro sofria uma interven\u00e7\u00e3o federal na \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica, com participa\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeu filho foi morto aos 14 anos e [antes de morrer] me fez uma pergunta: \u2018M\u00e3e, pelo amor de Deus, o que eu fiz? Eles n\u00e3o me viram com roupa e material de escola?\u2019 Mesmo que n\u00e3o tivesse com roupa e material de escola, qual \u00e9 o problema? O papel do Estado n\u00e3o \u00e9 entrar para matar. A gente precisa de saneamento b\u00e1sico, de uma luz, de um rel\u00f3gio [de \u00e1gua]\u201d, protesta Silva, que \u00e9 uma das fundadoras do Coletivo M\u00e3es da Mar\u00e9, que atua em defesa dos direitos humanos na favela e por mem\u00f3ria, justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o. \u201cO Estado mata uma fam\u00edlia inteira porque adoece, as m\u00e3es v\u00eam morrendo. A gente se joga na luta n\u00e3o \u00e9 por estrelismo, mas para n\u00e3o morrer mesmo\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTodos os filhos assassinados pelo Estado est\u00e3o presentes na nossa voz, que n\u00e3o se cala, e vamos lutar por justi\u00e7a\u201d, bradou Ana Paula Oliveira, fundadora do Coletivo M\u00e3es de Manguinhos. Ela tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e de uma v\u00edtima, o jovem Jonathan Oliveira, morto em Manguinhos, favela do Rio de Janeiro, em 2014, por um policial da Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP). Na \u00e9poca, ele tinha 19 anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Luta atualizada<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos pontos do debate desta ter\u00e7a, no contexto de mem\u00f3ria sobre as viola\u00e7\u00f5es durante a ditadura militar, \u00e9 justamente transpor essa luta para as v\u00edtimas atuais de viol\u00eancia do Estado, marcadamente popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas das grandes cidades, especialmente a juventude negra que vive nessas \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO tema da ditadura \u00e9 algo de penetra\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil na sociedade brasileira. Historicamente, as pessoas do presente t\u00eam dificuldade de se conectar. \u00c9 por isso que principal ganho para essa luta por mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o \u00e9 quando incorporamos os novos agentes dessa luta, que s\u00e3o essas v\u00edtimas da viol\u00eancia policial\u201d, argumenta Gabrielle Abreu, coordenadora da \u00e1rea de mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a do Instituto Vladimir Herzog e integrante da dire\u00e7\u00e3o executiva da Coaliz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Abreu, a falta de uma verdadeira justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, ap\u00f3s o fim do regime militar, \u00e9 um dos fatores que mais contribuem para a reitera\u00e7\u00e3o dessa viol\u00eancia. \u201cA falta de cuidado, naquele momento, acaba refletindo hoje num certo aperfei\u00e7oamento da maneira como, por exemplo, as pol\u00edcias agem nas periferias e favelas brasileiras, uma cultura de impunidade que a ditadura n\u00e3o inaugura, mas acaba consolidando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Estado que mata<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro meses, Gabriel Vilar, de apenas 18 anos tamb\u00e9m foi morto em uma opera\u00e7\u00e3o policial na comunidade Nova Holanda, que tamb\u00e9m faz parte da Mar\u00e9, no Rio de Janeiro. \u201cOs sonhos do meu irm\u00e3o foram interrompidos por um Estado genocida\u201d, desabafa Rafaella Vilar, de 28 anos, irm\u00e3 mais velha de Gabriel. Segundo ela, seu irm\u00e3o foi alvo de cinco tiros e outros cinco golpes de faca. Seu corpo teria ficado por v\u00e1rias horas em poder de policiais at\u00e9 ser entregue para a fam\u00edlia. \u201cOs policiais arrastaram o corpo do meu irm\u00e3o como se ele fosse um bicho, de uma rua para outra. A pele dele saiu toda, ficou em carne viva. Quando aconteceu [o crime] eram 11h30 da manh\u00e3, meu irm\u00e3o foi encontrado \u00e0s 5h da tarde\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Bruna Mozer de Souza conta que seu filho, Bruno Luciano Mozer, foi executado aos 18 anos, na comunidade do Muqui\u00e7o, em 2018. \u201cTomou um tiro no ombro, se rendeu e foi morto em seguida com um tiro na cabe\u00e7a\u201d. O enterro foi no dia do anivers\u00e1rio da v\u00edtima e ela teve que promover uma \u201cvaquinha\u201d na favela para arrecadar os R$ 2,8 mil usados nas despesas do enterro. Na \u00e9poca, o Estado registrou Bruno como filho de pais desconhecidos e com resid\u00eancia ignorada. Esse descaso do Estado faz com que Bruna andasse sempre com o atestado de \u00f3bito do pr\u00f3prio filho na bolsa, uma forma de dar dignidade \u00e0 sua mem\u00f3ria, como algu\u00e9m que tem fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s mais de 14 anos do assassinato do irm\u00e3o, Luciano Norberto dos Santos ainda aguarda o julgamento dos agentes policiais envolvidos o caso. \u201cExecutaram meu irm\u00e3o com um tiro na nuca. O perito chegou \u00e0 conclus\u00e3o que meu irm\u00e3o poderia estar com o bra\u00e7o levantado [quando foi alvejado]\u201d, conta. \u201cEle estava subindo do trabalho para casa quando os policiais pegaram ele e subiram com ele at\u00e9 o alto do morro\u201d, acrescenta. O j\u00fari popular do caso est\u00e1 previsto para os pr\u00f3ximos meses. \u201cN\u00e3o \u00e9 vingan\u00e7a, queremos justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Gabrielle Abreu, do Instituto Vladimir Herzog, as pr\u00e1ticas violentas dos Anos de Chumbo serviram de heran\u00e7a para o que vemos hoje. \u201cA ditadura criou dispositivos ideol\u00f3gicos e pr\u00e1ticos de viol\u00eancia que acabaram se perpetuando ao longo de d\u00e9cadas, mesmo depois do fim do regime militar, porque n\u00e3o houve essa justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana que marca os 59 anos do golpe de Estado de 1964, a Coaliz\u00e3o Brasil por Mem\u00f3ria, Verdade, Justi\u00e7a, Repara\u00e7\u00e3o e Democracia reuniu m\u00e3es e familiares de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial ao longo dos \u00faltimos anos em um debate na C\u00e2mara dos Deputados, em Bras\u00edlia, na tarde da \u00faltima &nbsp;ter\u00e7a-feira, 28. 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