{"id":911,"date":"2020-08-31T17:54:56","date_gmt":"2020-08-31T20:54:56","guid":{"rendered":"http:\/\/nordesteimprensa.com.br\/?p=911"},"modified":"2020-08-31T17:54:57","modified_gmt":"2020-08-31T20:54:57","slug":"refugiados-cubanos-contam-com-solidariedade-e-iguaria-baiana-para-sobreviver-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nordesteimprensa.com.br\/index.php\/2020\/08\/31\/refugiados-cubanos-contam-com-solidariedade-e-iguaria-baiana-para-sobreviver-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Refugiados cubanos contam com solidariedade e iguaria baiana para sobreviver na pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p>Os cubanos Patr\u00edcia Girbau, 32, e Fernando Martinez, 38, contam os dias para poderem trazer a filha e reunir a fam\u00edlia novamente. Maria Fernanda, de 10 anos, ficou com os av\u00f3s maternos em Cuba, enquanto Patr\u00edcia, Fernando e o filho mais novo, Daniel de 8 anos, tentam recome\u00e7ar a vida no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em busca de uma vida melhor, o casal decidiu deixar Cuba clandestinamente e imigrar para o Brasil, numa viagem que durou quase um m\u00eas e levou praticamente a reserva de US$ 7 mil resultante da venda da casa pr\u00f3pria, pouco antes da partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, eles moram em Salvador, capital baiana. Assim que chegaram ao Brasil deram entrada na papelada para obter a condi\u00e7\u00e3o de refugiados \u2014 s\u00f3 assim, podem solicitar a vinda da filha. &#8220;Em novembro deste ano, vai fazer um ano que estamos aqui. Temos que esperar um outro ano mais, para entrar no processo para que ela possa vir, sem que tenhamos que ir para l\u00e1&#8221;, conta Patr\u00edcia, esperan\u00e7osa. No momento, o processo ainda est\u00e1 tramitando e eles aguardam o resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo administrativo foi aberto no Conare (Comit\u00ea Nacional de Refugiados), \u00f3rg\u00e3o federal vinculado a cinco minist\u00e9rios brasileiros, respons\u00e1vel por este tipo de demanda. O per\u00edodo m\u00e9dio entre a solicita\u00e7\u00e3o do ref\u00fagio e a finaliza\u00e7\u00e3o do processo leva dois anos. No entanto, por conta da pandemia, a espera pode ser maior.https:\/\/tpc.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-37\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei Brasileira de Ref\u00fagio considera como refugiado qualquer pessoa que saiu do seu pa\u00eds de origem por temer persegui\u00e7\u00e3o por motivos de ra\u00e7a, religi\u00e3o, nacionalidade, grupo social, opini\u00f5es pol\u00edticas imputadas ou por uma situa\u00e7\u00e3o de grave viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos. Mesmo se a entrada no pa\u00eds for feita de forma ilegal, enquanto o pedido for analisado, os indiv\u00edduos n\u00e3o podem ser investigados ou multados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda de acordo com a lei brasileira, toda pessoa com processo de ref\u00fagio em andamento tem direito a documentos de identidade (protocolo provis\u00f3rio) e carteira de trabalhado provis\u00f3ria. Al\u00e9m disso, os solicitantes podem frequentar escolas p\u00fablicas e receber atendimento de sa\u00fade em quaisquer hospitais p\u00fablicos do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Para trazer a filha para o pa\u00eds, Patr\u00edcia e Fernando precisam ter o processo de ref\u00fagio aprovado para, ent\u00e3o, solicitar tamb\u00e9m no Conare a reuni\u00e3o familiar. Na letra fria da lei, &#8220;a pessoa refugiada, que tenha sido reconhecida como tal pelo governo brasileiro, pode solicitar a reuni\u00e3o familiar de seus familiares que dependam economicamente e estejam fora do pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A vontade de deixar Cuba era antiga, mas o casal n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es financeiras para fazer a viagem e, por isso, o sonho foi adiado por alguns anos. Moradores da cidade de Camaguey, regi\u00e3o central da ilha e capital da prov\u00edncia de mesmo nome, os dois tem diploma universit\u00e1rio. Patr\u00edcia \u00e9 formada em inform\u00e1tica e Fernando, em psicologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles contam, no entanto, que a renda do casal mal dava para o or\u00e7amento de uma semana. Para complementar, Patr\u00edcia ainda trabalhava como uma esp\u00e9cie de administradora de uma lanchonete. Somados os dois empregos eram jornadas de 12 a 15 horas di\u00e1rias, para ganhar 75 pesos cubanos (CUP), o equivalente a, mais ao menos, tr\u00eas d\u00f3lares por dia. Ela lembra que com o que ganhava conseguia ao menos comer, mas nem sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu preferia comprar a merenda para a escola dos meus dois filhos&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de perspectivas fez com que eles decidissem, em 2019, vender o \u00fanico bem que tinham: a casa em que moravam, herdada por Fernando ap\u00f3s o falecimento da m\u00e3e, v\u00edtima de um c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O dinheiro n\u00e3o foi o suficiente para pagar a passagem dos quatro, eu, minha esposa e nossos dois filhos. A minha filha, de dez anos, precisou ficar em Cuba com os av\u00f3s maternos. O que pens\u00e1vamos era chegar no Brasil, trabalhar e poder traz\u00ea-la para c\u00e1. Mas j\u00e1 tem nove meses que estamos aqui e ainda n\u00e3o conseguimos isso&#8221;, lamenta Fernando.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A viagem para o Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p>Foram precisos exatos e exaustivos 21 dias para que a fam\u00edlia conseguisse superar os mais de cinco mil e setecentos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia que separam Camaguey, em Cuba, de Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de la\u00e7os religiosos e pol\u00edticos entre a ilha socialista e a capital baiana, que incluem a rela\u00e7\u00e3o entre a santeria e o candombl\u00e9 (duas religi\u00f5es com divindades iorub\u00e1s), e a ins\u00f3lita amizade entre Fidel Castro (1926-2016) e o ex-governador da Bahia, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es (1927-2007), nos anos 1990, nenhum destes fatores impulsionou a escolha do destino do casal.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o foi uma indica\u00e7\u00e3o familiar. Um primo de Fernando imigrou para Salvador meses antes e, nas conversas, propagandeava que rapidamente conseguiu alcan\u00e7ar uma vida confort\u00e1vel, com casa e emprego bem remunerado. Buscando objetivos semelhantes, o casal partiu com o filho at\u00e9 a Guiana, no dia 7 de setembro de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>De l\u00e1, foi feita a travessia da fronteira com o Brasil. J\u00e1 dentro do pa\u00eds, a primeira capital na qual pisaram foi Boa Vista, em Roraima. At\u00e9 chegar a Salvador, foram necess\u00e1rios mais voos e horas em \u00f4nibus por todo tipo de estrada. Em 24 de novembro do ano passado, o p\u00e9riplo finalmente terminou com a chegada ao destino &#8211; marcada por decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando chegamos na casa de meu primo nos demos conta de que tudo era mentira. Tudo que ele falava que estava bem, n\u00e3o era verdade. Ele morava em uma situa\u00e7\u00e3o ruim, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o nem de morarmos com ele temporariamente&#8221;, relembra Fernando.<\/p>\n\n\n\n<p>Decepcionados, com o dinheiro acabando e sofrendo com a separa\u00e7\u00e3o da filha, a fam\u00edlia quase desistiu de fixar resid\u00eancia no Brasil e pensou em retornar imediatamente ao pa\u00eds natal. A vontade de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, no entanto, falou mais alto. Patr\u00edcia e Fernando decidiram persistir e come\u00e7aram a busca por uma moradia. Foi quando as coisas come\u00e7aram a mudar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A sorte na Bahia<\/h2>\n\n\n\n<p>A dona de um dos im\u00f3veis que eles tentaram alugar ficou comovida com a hist\u00f3ria da fam\u00edlia de refugiados. Dona Cica, como \u00e9 chamada pelos dois, decidiu acolher a fam\u00edlia sem fazer muitas perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com a resist\u00eancia do casal, ela n\u00e3o tem cobrado o valor do aluguel, cabendo aos estrangeiros \u00e0s despesas da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando ela conversou conosco e nos conheceu um pouco mais, ela n\u00e3o quis cobrar o aluguel. Porque ela sabia que estava dif\u00edcil conseguir um emprego, e ela queria ajudar. Ela \u00e9 como se fosse uma m\u00e3e para a gente aqui, temos qualquer problema e ela logo corre para nos dar assist\u00eancia&#8221;, conta Patr\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>A expectativa inicial era de que, em no m\u00e1ximo tr\u00eas meses, eles conseguissem encontrar um emprego e pudessem assumir definitivamente as contas. Muitos curr\u00edculos foram entregues. Patr\u00edcia chegou a fazer entrevistas, mas n\u00e3o foi contratada.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das solu\u00e7\u00f5es foi vender bolos, caf\u00e9 e leite pelas ruas de Salvador. Com a chegada da pandemia e o consequente fechamento do com\u00e9rcio, a partir de mar\u00e7o, a situa\u00e7\u00e3o piorou. Foi neste momento que a rede de apoio iniciada por dona Cica cresceu, ganhando novos adeptos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocada pela pen\u00faria enfrentada pelos cubanos, a vizinha Lu\u00edsa Caetano organizou uma vaquinha na internet para arrecadar dinheiro para a fam\u00edlia. Eles conseguiram juntar R$ 3,5 mil, que seriam usados inicialmente para bancar a vinda de Maria Fernanda e o reencontro da fam\u00edlia. Mas eles descobriram que teriam de aguardar o final do processo burocr\u00e1tico do Conare.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, decidi que a melhor op\u00e7\u00e3o seria usar o dinheiro para profissionaliz\u00e1-los de alguma forma&#8221;, relata Lu\u00edsa. &#8220;E o que mais estamos consumindo em meio a essa pandemia \u00e9 comida. Entrei em contato com uma famosa dona de uma escola de gastronomia aqui em Salvador, contei a hist\u00f3ria deles e ela se prontificou a ajudar Patr\u00edcia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O p\u00e3o del\u00edcia baiano, com toque cubano<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora o acaraj\u00e9, vatap\u00e1 e moqueca sejam as iguarias mais conhecidas de Salvador e do Rec\u00f4ncavo Baiano, o leg\u00edtimo soteropolitano sabe que um dos quitutes mais consumidos em anivers\u00e1rios, batizados e cerim\u00f4nias festivas \u00e9 o p\u00e3o del\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e3ozinho, geralmente recheado com queijo ou pat\u00ea, foi criado em Salvador pela cozinheira El\u00edbia Portela, em 1970 (embora nunca tenha patenteado a cria\u00e7\u00e3o). Na culin\u00e1ria cubana, segundo Patr\u00edcia, n\u00e3o h\u00e1 nada que se aproxime do p\u00e3ozinho del\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu j\u00e1 cozinhava. Mas p\u00e3o, n\u00e3o. Muito menos um p\u00e3o baiano. Mas depois da aula, eu cheguei em casa com a receita e os ingredientes e falei para Lu\u00edsa, hoje \u00e9 o dia, vou fazer uma tentativa. N\u00e3o sei se foi coisa de Deus, mas deu certo&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu t\u00e3o certo que Lu\u00edsa criou uma p\u00e1gina no Instagram, chamada Patr\u00edpan &#8211; P\u00e3ozinho Del\u00edcia. Eles come\u00e7aram a vender o produto por meio das redes sociais, contando com servi\u00e7o de entrega. Poucos dias depois, as encomendas come\u00e7aram a chegar de todos os lugares de Salvador. Para dar conta das entregas, eles est\u00e3o tendo que trabalhar durante todo o dia e at\u00e9 \u00e0 noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a entrevista por chamada de v\u00eddeo para a BBC News Brasil, Patr\u00edcia contou que j\u00e1 tinha feito 130 p\u00e3ezinhos e teve at\u00e9 que recusar pedidos, porque, por enquanto, n\u00e3o tinham estrutura suficiente para dar conta da crescente demanda \u2014 eles t\u00eam apenas um fog\u00e3o, doado por uma pastoral.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pastoral e procura por emprego<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a ajuda de dona Cica, Fernando e Patr\u00edcia conheceram o padre Manoel Filho, que coordena a Pastoral do Migrante, da Par\u00f3quia Ascens\u00e3o do Senhor. O projeto acolhe os refugiados que chegam at\u00e9 Salvador, al\u00e9m de fazer encaminhamentos para diversos servi\u00e7os, como a busca por advogados, m\u00e9dicos e por emprego. Eles j\u00e1 receberam pessoas de Cuba, Venezuela, Haiti e Senegal. Atualmente, o projeto ajuda cerca de 60 pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal cubano come\u00e7ou a receber ajuda, e por um grupo de WhatsApp do pr\u00f3prio projeto, souberam que a par\u00f3quia estava doando um fog\u00e3o. Patr\u00edcia manifestou interesse e pode levar para casa o eletrodom\u00e9stico, que hoje est\u00e1 ajudando a garantir a renda da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a venda dos p\u00e3ezinhos, os cubanos est\u00e3o melhorando as condi\u00e7\u00f5es de vida. Fernando continua procurando um emprego, e n\u00e3o apenas na \u00e1rea em que \u00e9 formado. O objetivo \u00e9 ficar em Salvador, conseguir pagar o aluguel, as contas e juntar dinheiro. Voltar para Cuba n\u00e3o faz mais parte do horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu sei que eu tenho que ficar aqui, mesmo ainda n\u00e3o tendo emprego fixo. Tenho esperan\u00e7a de que em algum momento algo aconte\u00e7a. Aqui se tem liberdade, voc\u00ea pode viajar, passear, isso n\u00e3o tem pre\u00e7o. Em Cuba voc\u00ea \u00e9 uma pessoa presa, e a liberdade \u00e9 o mais importante que uma pessoa pode ter. E \u00e9 uma coisa que l\u00e1 ningu\u00e9m tem&#8221;, conta Patr\u00edcia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os cubanos Patr\u00edcia Girbau, 32, e Fernando Martinez, 38, contam os dias para poderem trazer a filha e reunir a fam\u00edlia novamente. Maria Fernanda, de 10 anos, ficou com os av\u00f3s maternos em Cuba, enquanto Patr\u00edcia, Fernando e o filho mais novo, Daniel de 8 anos, tentam recome\u00e7ar a vida no Brasil. 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